Estatuto da Família: retrocesso que me recuso a aceitar

Estatuto da Família: retrocesso que me recuso a aceitar

Demorei para escrever sobre isso porque é algo tão repugnante para mim que não sabia nem por onde começar. Sim, não sabia por onde começar justamente por ser tão absurdo, que acabo me sentindo uma pessoa de outro planeta, muitas vezes costumo dizer que “não nasci para esse mundo.” e isso vem se tornando uma afirmação cada vez mais constante.

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Para quem ainda não sabe na última quinta-feira (24) a Câmara dos Deputados aprovou o “estatuto da família” que basicamente define entidade familiar apenas a união de um homem e uma mulher. Para ficar mais claro:

“Reconhece-se como família, base da sociedade, credora de especial proteção, a entidade família formada a partir da união de um homem e de uma mulher, por meio de casamento ou de união estável, e a comunidade formada por qualquer dos pais e seus filhos”, destaca o texto.

“Que. porra. é. essa?” Foi esse o primeiro pensamento que tive e bem assim, pausadamente. Se você ainda não entendeu: se seus pais são separados, vocês não formam uma família perante ao governo. Se você foi criado por sua tia/tio, avô/avó, qualquer outro parente, também não. Nem preciso comentar o fato de que casais do mesmo sexo não entram na definição de família.

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Ao meu entender família não é formada por pessoas e sim por AMOR. Quantas vezes é dito por aí “fulano é como da família”, “você é da família”? Isso só pode ser dito se houver amor, respeito, confiança e muitos outros sentimentos que formam sim uma família.

Família = pessoas que se amam e querem ficar juntas. #EstatutoDaFamília #FamíliaéAmor #AmorSejaComoFor

Posted by Conselho Nacional do Ministério Público on Sexta, 25 de setembro de 2015

 

É de um retrocesso sem precedentes, com tanta coisa acontecendo no Brasil, a Câmara dos Deputados parar para simplesmente excluir uma parte da sociedade baseada simplesmente em aspectos religiosos, afinal, 21 deputados presentes na comissão compõem a chamada bancada evangélica, que claramente defendem tudo baseados na religião e, claro, no que lhes convém. Isso é lógico, porque se seguissem a bíblia, eles estariam condenados ao inferno, porque “não roubarás” não entra na pauta deles, né mores?

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Esse tipo de coisa fere a Constituição – que por si só já é capenga – pois segundo ela o Estado é laico, ou seja, não pode tomar partido de religião para tomar decisões, criar leis, projetos, etc. E por que é assim? Porque o país é enorme, cheio de gente com crenças diferentes, ideais diferentes, sexualidade diferente. Somos indivíduos únicos e é óbvio que não dá para criar leis e projetos que agradem cada um, mas não se pode excluir parte da sociedade. Todos devem estar inclusos e cobertos pela lei, seus direitos e também deveres como cidadão.

Se o caso é levantar a bíblia para defender a família, acho que a interpretação está bem deturpada no que se diz respeito à família. Basta ver esse texto de um amigo do Facebook:

Jesus, filho de uma garota de 16 anos.
Pai “biológico”: Deus.
Pai que concebeu: pomba.
Pai adotivo: um homem de mais de 60 anos, esposo (ainda não casado) com a garota de 16.
E vocês vêm me falar de família tradicional?

Pois é gente, essa é a história que está na Bíblia e se for levar ao pé da letra a interpretação, o discurso dessa banca evangélica é sem pé nem cabeça e, acima de tudo, nojento.

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Mas como as coisas chegaram nesse ponto? Simples, eu falei com o perfil Sociedade LGBT no Instagram: existe uma cultura um tanto coronelista no Brasil ainda por parte do próprio povo. O que eu percebo é que as pessoas não votam em projetos de políticos e sim em perfis de acordo com os ideais que combinem com os delas, por exemplo, vejo muita gente votar porque é “irmão da igreja”, porque tem influência na alta sociedade e, vejam só a ironia, porque fulano é como se “fosse da família”.

Really?

Ou seja, a culpa disso tudo acontecer é de uma maioria que não tem a mínima noção do que é voto consciente, que simplesmente votam em pessoas e não em projetos como disse. Pergunte para algum parente, vizinho, conhecido ou qualquer pessoa; se ela se lembrar em quem votou já é uma grande coisa, depois pergunte por que e quais o projetos do candidato votado. Você vai se surpreender.

Esse texto está ficando enorme, então vou parar por aqui, mas fica minha indignação ainda entalada na garganta, um grito abafado de desgosto com a política que foi instalada no Brasil desde o ano passado, onde as minorias não tem vez e estamos cada vez mais encurralados. Sempre costumo ser positivo, mas essa semana vejo que não há saída e perdi boa parte da minha esperança de dias de igualdade. Só me restou a reflexão do RuPaul sobre família, basicamente sobre LGBT:

Nós, como gays, podemos escolher nossa família.

Nós, como gays, podemos escolher nossa família.

E também essa imagem que mostra quais deputados votaram contra e quais votaram a favor desse absurdo, para que, nas próximas eleições, ninguém se esqueça em quem NÃO votar:

Políticos que votaram no estatuto da família

#neverforget

 

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Blogueiro, Youtuber, Social Media, Gerente de Projetos Web, metido a webdesigner e programador, sim, um workaholic. Viciado em The Sims, Resident Evil e músicas toscas. Aspirante a ator.

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